sábado, agosto 01, 2009

Direto de Pyongyang: a capital da Coréia do Norte é aqui.

Quando eu me referia a Brasília, a tão chamada “cidade da fantasia”, sempre me deparava com a idéia de Versalhes. Luis XIV passou uma boa parte do seu reinado montando aquele palácio monstruosamente belo às custas do sofrimento do pobre povo francês (sem contar as disputas geopolíticas do mundo europeu e, conseqüentemente, as guerras, atochado que estava o país em impostos). Fénelon, o notável escritor e teólogo católico, criticava abertamente o monarca, dizendo as seguintes palavras (o grifo é meu): “a França morre de fome (...) é um país de indigentes”. A declaração refletia um país esgotado pelos caprichos e luxos de um rei.

Não conhecia Brasília. As únicas vezes em que pisava na capital brasileira foram no aeroporto. E detestava a atmosfera daquela cidade insípida e seca mesmo no ar. As dores de cabeça são constantes, os narizes sangram, tamanha a sensação de desidratação. A má fama do que tudo que se passava naquela cidade, as falcatruas, as “fábricas de ilusões” e “usinas de déficits”, na feliz expressão do economista Roberto Campos, só me fortaleciam a ojeriza. Aí me lembrava: Brasília é a Versalhes de concreto, com a corte de seus áulicos e beija-mãos bajulando uma espécie de monarca republicano. Não é por acaso que depois de construída, foi governada por militares!

Entretanto, quando eu tive a primeira oportunidade de conhecer o Plano Piloto e o centro do poder, o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios, eis que agora me dei conta da grande injustiça que fazia ao Rei da França: a capital do Brasil em nada lembra à beleza e majestade de Versalhes. Brasília é, acima de tudo, a capital da Coréia do Norte, mais desenvolvida e sem bomba atômica. Pyongyang foi a primeira idéia que me surgiu na cabeça quando vi a cidade. Os prédios padronizados, a paisagem monótona e sombria, além de uma arquitetura estranha e enfadonha, causaram-me uma impressão de surpresa. Eu me perguntava: o que aquilo queria dizer?

Quem acha que a arquitetura não diz nada está muito enganado. É um dado comum de nossa sociedade não perceber os símbolos e expressões que estão por trás das artes, da música e da arquitetura. As pessoas passam batido sobre coisas que, à primeira vista, não notam, ora porque estão com pressa, ora porque não param para pensar.

Nunca pisei em Versalhes. Mas pelas fotos, pelas pinturas, pelas salas e pelas mobílias, além de arquitetura suntuosa, todo aquele requinte parece querer dizer alguma coisa: a grandeza e o bom gosto de Luis, o Rei Sol, como Apolo, o centro das atenções da França. No gigantesco jardim, os idílios e passeios da monarquia desocupada. O prédio, com suas milhares de janelas e quartos, revela a magnitude de uma pequena cidade governada por um grande rei. Versalhes é a personalidade viva de alguém. Imaginemos Versalhes nos sons do grande músico Jean-Baptiste Lully ou do teatro de Molière? É o “L´etát c´est moi” de um monarca personalizado na figura de um palácio. Luis XIV é Versalhes, Versalhes é Luis XIV. Alguém poderia objetar o aspecto absolutista e autoritário de Luis XIV como um dos males do povo francês. Esse alguém está correto. Todavia, as belezas do Palácio, embora personalizem o rei, não anulavam as individualidades artísticas que o acompanhavam. Os pintores eram magníficos, os músicos eram melodiosos, os arquitetos eram extravagantes, enfim, tudo se tornou esplendor e beleza para a história das artes da França.

E Brasília? A capital do Brasil é uma cidade literalmente comunista, impessoal, coletivista. Se há algo na arquitetura de Niemeyer é a destruição da individualidade. Das ruas às casas, que mais parecem caixotes, dos palácios aos Ministérios, que mais parecem casernas agrupadas como bunkers, Brasília é uma cidade militarizada. As pessoas não dormem em apartamentos, dormem em gavetas ou túmulos. Um amigo meu, intérprete, homem falador de várias línguas, chegava de Kiev, na Ucrânia, quando levou um tremendo susto: Brasília era idêntica a qualquer capital de uma república soviética!

E os nomes das ruas? As pessoas não são localizadas pelos seus nomes, mas por números. Cada bairro parece um departamento de um gigantesco planejamento central. Há bairros pra tudo, bairros de hospitais, bairros de ricos, bairros de pobres, bairros de comércios, tudo dividido como se fossem meros setores de uma gigantesca burocracia, enfim, as suas várias “Esplanadas”. Se não bastasse o aspecto de tudo planejado da cidade, há também as “cidades-satélites”, com suas faltas de brilho, todas em torno da cidade-mãe, da “grande irmã” capital, tal como no romance de George Orwell, 1984. A única coisa que parece quebrar um pouco a rigidez geométrica das formas é a catedral, que lembra muito o impacto de uma gota de orvalho em choque com uma poça d´água. Ou, como dizia um amigo, parece um abacaxi. Ao menos há algo católico naquelas estruturas frias e sombrias, apesar da atmosfera pesada dos Três Poderes.

De onde provém tamanha falta de individualidade? O velho stalinista centenário Niemeyer projetou algo digno de sua ideologia tacanha, junto com seu comparsa Lúcio Costa. Porém, o Sr. Niemeyer parece levar sua perspectiva totalitária apenas na teoria e na arquitetura: é um homem perfeitamente contraditório, capaz de ganhar milhões de dólares em nossas sociedades capitalistas e desfrutar de uma vida de luxo no Rio de Janeiro. Ainda assim, elogia o brutal sistema dos Arquipélagos Gulags e condena o mesmo sistema que o sustenta. É pior, o homem é um falsificador nato da própria personalidade. Em um artigo publicado na Folha de São Paulo, o arquiteto comentou sobre a biografia do livro “O jovem Stálin”, pela ótica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore. O que poderia ser uma espécie de análise sobre a juventude do ditador genocida acabou sendo uma falsificação histórica assombrosa. Niemeyer afirma, ao arrepio dos fatos, que o historiador estava reabilitando o déspota da Geórgia. A mentira, felizmente, não passou despercebida pela opinião pública, num raro momento de lucidez. Montefiore, que descreve Stálin como um psicopata e gângster, já nas palavras de Niemeyer, ganhou auras de patética santidade: Stálin foi aquele que fez uma “atuação heróica” em sua “luta contra o capitalismo”. Lembremos que é o mesmo capitalismo que dá fortunas à sua estética esterilizante. A pergunta que fica no ar é: Niemeyer leu o livro? Provavelmente não. E se leu ou mentiu ou está com mal de Alzheimer, fruto de anos de militância stalinista. Quando eu entrei no Congresso Nacional, perguntei a uma guia muito simpática o que representava as duas metades de esferas acima do teto do senado e da câmara. Alguém poderia dizer que as duas esferas unidas representavam a junção do Senado e da Câmara. Mas parece que Niemeyer afirmou que aquilo não era absolutamente nada. É provável que a arquitetura do niilismo não haja sentido algum. Não que eu seja revoltado contra a arte moderna. Confesso, tenho nostalgia pelas catedrais medievais e palácios europeus. Porém, um arquiteto como Antoni Gaudí, que é moderno e do século XX, transmite sólida beleza e espiritualidade nas arquiteturas das casas da Catalunha. E Niemeyer? É um “realismo socialista” rasteiro, uma cópia das capitais das ditaduras comunistas, em particular, Pyongyang.

Ainda me lembro quando conversava com uma senhora portenha muito bonita, a respeito de Niemeyer. Ela estava deslumbrada com a cidade e com a obra do arquiteto. Eu me perguntava o que ela viu de tão interessante naquela coisa tão seca, tão sem graça. Se Brasília diz alguma coisa, com certeza, não é boa. Salvo, talvez, para as instituições necessárias para a sobrevivência da democracia no país. Neste ponto, mas somente neste ponto, conhecer o Congresso Nacional me animou. Por mais falha que seja a instituição, percebi que muitas pessoas que pertencem àquelas Casas não estão à altura da responsabilidade de legislar. E aí conheci o túnel do tempo, com a história do Congresso Nacional, em particular, o destaque dado às épocas monárquicas, quando o Brasil tinha estadistas de grosso calibre.

No entanto, parece que Brasília incorpora espiritualmente o caráter stalinista de Niemeyer e da sombria Piongyang, a capital da Coréia do Norte. Aproximando-me de alguns conhecidos próximos no Ministério das Relações Exteriores, há muita gente ingênua que acha que o governo Lula se aliou à ditadura de Kim Jong Il, por conta do “livre comércio”. Outros acham benéficas as relações com Irã. E a ligação criminosa do PT com o Foro de São Paulo, com Hugo Chavez da Venezuela, Evo Morales da Bolívia, Lugo do Paraguai, Correa do Equador, e mais recentemente, Zelaya de Honduras, passa despercebida por eles, desconhecida ou subestimada, como se não fosse com eles. Na verdade, de forma hipócrita e dissimulada, o Presidente Lula mandou retirar os embaixadores brasileiros em Honduras, quando o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público e o exército do país expulsaram o compadrio chavista Zelaya. É mais patético ainda: poucos meses antes, Lula havia mandado embaixadores para Pyongyang. Isso porque a OEA atual se posa de “defensora” da democracia contra os golpistas, mesmo que para isso insira a ditadura cubana na entidade. Ou seja, isola Honduras por defender a democracia e patrocina o regime de Fidel Castro para destruí-la. Tal como Piongyang, o Brasil tem uma diplomacia capaz de varrer as democracias no continente e causar sérios prejuízos ao país. Para ser uma Piongyang completa, o Brasil só precisa ter mísseis nucleares. Contudo, ainda é incompetente demais para isso, embora a fama de fora-da-lei do direito internacional esteja espalhada por quase toda mídia afora (claro que a imprensa brasileira não conta...).

No plano interno, o governo federal usa a Esplanada dos Ministérios para colocar toda a companheirada do Partido. Nada mais parecido com Pyongyang. Usa a polícia federal para perseguir desafetos. Usa da influência do executivo para intervir no judiciário e no congresso nacional. O caso da cumplicidade do governo Lula com o senador José Sarney, acusado de vários escândalos, entre os quais, a possuir contas e favores secretos, é um retrato da natureza moralmente deturpada e perigosa do petismo. A acusação do senador Jarbas Vasconcelos a respeito dessa influência nefasta do executivo sobre o legislativo é mais que oportuna. A intenção premeditada do governo é de desmoralizar o Congresso Nacional e ter força sobre ele. Um desses golpes foi o do mensalão, a tentativa de subornar os parlamentares e comprar as opiniões da Câmara. O atual é o de promover a pior corja de pessoas que jamais sentou nas cadeiras das duas Casas, para tornar o Congresso um balcão de negócios e cargos! Raramente as Casas Legislativas chegaram ao seu nível mais baixo. E o petismo tem uma pesada dose de responsabilidade nisso. Quando a democracia faz de atos que poderiam ser de conhecimento público em conluios secretos, é prova de que o caráter das instituições está se degenerando. Contudo, as falcatruas de Sarney são coisa pequena perto das alianças e dos projetos políticos que o PT esconde por trás da manga. Em particular, o patrocínio da destruição dos regimes democráticos no continente latino-americano e a promoção de ditaduras totalitárias é o projeto que o PT esconde por trás da capa de convertido ao capitalismo. Esses ventos da desordem e do caos um dia vão chegar ao Brasil. E tem gente que não acredita, apática e bestializada demais para compreender a gravidade da situação!

Uma dama da corte de Versalhes dizia que o Palácio do Rei era uma favorita sem mérito. Brasília nem tem essa vantagem: não é favorita e quase não tem mérito nenhum!

sexta-feira, julho 24, 2009

A vontade geral dos totalitarismos.

Recentemente, em uma audiência do Supremo Tribunal Federal, o Ministro Joaquim Barbosa trocou farpas pessoais com outro Ministro, Gilmar Mendes, afirmando que este estava arruinando o judiciário. Revidando a provocação, Gilmar Mendes disse que o seu colega não tinha condições de dar lições de moral. Ao ouvir a resposta, Joaquim Barbosa revidou: - “Saia à rua, ministro Gilmar, saia à rua, faça o que eu faço!”. Aquela frase do ministro foi profundamente incômoda , por simular uma perversão de linguagem, por trás de um populismo demagógico. Para ele não existe a lei, a Constituição, o decoro ou os princípios morais elementares: há sim o palpite da massa, o argumento da popularidade, um sofisma inaceitável para quem ocupa um cargo de tamanha importância. O palpite se tornou o dom supremo de deliberação do magistrado.

Todavia, não podemos culpar somente o ministro. A constituição brasileira é, essencialmente, demagógica. Quando a Carta Magna, no parágrafo único do art. 1 diz que "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”, há uma margem para a destruição da democracia. De fato, a sementeira do mal está na visão de Rousseau, que coloca a idéia da “vontade geral” acima de valores transcendentes na política. A questão chega a ser idolátrica: se todo poder soberano emana do povo, personificado numa ilusão de um todo coletivo, logo, este povo acaba sendo equiparado ao plano divino, acima de qualquer sentido de valor, moralidade ou transcendência, e o imanente, o circunstancial, o terreno, estará acima do bem e do mal. “Todo poder emana do povo” quer dizer que o povo é uma espécie moderna de deus. E a Constituição, uma forma laicizada de revelação divina. É, em suma, um componente abertamente revolucionário, quase que como uma religião civil (algo que de fato Rousseau idealizou para o seu “contrato social”). Entendamos um paradoxo na visão rousseana: a “vontade geral” não se confunde com a vontade dos indivíduos isolados, e sim com uma “vontade” em torno do conjunto, como se os atributos comuns da coletividade pudessem fabricar uma homogeneidade no âmbito político. Há, inclusive, uma confusão imperdoável que ele faz entre a vontade coletiva e o chamado “bem comum”, tornando a idéia do todo coletivo, que bem poderia ser a “vontade popular”, num dom infalível. Se a sociedade política é tão somente um reflexo da famigerada “vontade geral”, ela pode ser qualquer coisa, porque a vontade abarca o infinito, o arbitrário, o ilimitado. No final das contas, o Estado se torna uma abstração com vontade e consciência próprias, acima dos desejos individuais isolados dos cidadãos. E a “vontade geral” se absolutiza na figura do Estado. Ou pior, absolutiza o Estado.

Voltemos ao Ministro do Supremo. A idéia dele de conclamar a voz das “ruas” encarna a premissa de que os humores momentâneos da massa estão acima das próprias leis constitucionais que eles, mesmos, como juízes, julgam. Ou seja, se nos termos da Constituição, a vontade geral do povo é o poder absoluto, logo, esse poder pode adulterar e destruir a própria Carta Magna, inclusive, seus direitos e garantias individuais. A emanação absolutista da “vontade geral” é, paradoxalmente, uma das maiores contradições das democracias liberais modernas. Pois uma de suas premissas, ou seja, o da chamada “soberania popular”, é perfeitamente refratária e inimiga das liberdades democráticas. Até porque o princípio é abertamente totalitário.

Se não bastasse o clamor do Ministro Joaquim Barbosa, um grupelho de oportunistas, que se auto-intitulou “Saia às ruas”, aproveitou a chamada para espezinhar o Ministro Gilmar Mendes, exigindo sua exoneração. A tal voz das ruas, ao arrepio das leis, acha que pode resolver as pendengas políticas no grito. Não há leis e Constituição para coibir a fúria dos incautos. Basta que uma corja autonomeada esperneie para se declarar a expressão máxima do palpite do populacho e destruir todas as estruturas orgânicas que protegem a democracia da tirania. Como a esquerda é mestra nas turbas autonomeadas na “vontade do povo”, é também precursora, na base do grito ou chantagem psicológica, da ameaça a autonomia do judiciário, transformando-o numa espécie de tribunal ideológico. De fato, é assim que pensa gente do naipe do Ministro da Justiça Tarso Genro, embebido na perversa doutrina do “direito alternativo”.

Por falar em “vontade geral”, um filme que marcou época na história do século XX, sem dúvida, foi o documentário do Partido Nazista, “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl. Entre as coisas mais incômodas do filme não foram tanto a beleza das cenas medievais de Nuremberg, o jogo inovador de filmagens e a magia teatral dos comícios e marchas nazistas. O incômodo mesmo foi ver o triunfo da vontade de Hitler, na figura de milhões de pessoas padronizadas militarmente em torno de uma só idéia e uma forma uniformizada de organização. A mensagem das cenas transmite a seguinte questão: a pessoa humana, através de sua integridade e suas peculiaridades, não vale absolutamente nada. É uma figura perdida e atomizada no meio da massa obediente e servil como curral partidário e estatal. Por outro lado, os comunistas teatralizaram a “vontade geral” nos julgamentos-farsa contra dissidentes, em particular, nos famosos processos e expurgos do Partido Comunista em Moscou, em 1936. A ralé histérica fazia claque nos julgamentos e pedia a morte do “inimigo do povo”, enquanto os juízes soviéticos e mesmo Stálin fingiam constrangimento. Por vezes, para tornar a farsa ainda mais convincente, havia comícios e marchas “populares” pedindo a destruição dos “sabotadores” do Estado soviético, como se cada cidadão fosse algum criminoso em potencial. Isso engendrou um clima de paranóia e loucura sem fim na União Soviética e milhões de pessoas foram presas ou deportadas para os campos de concentração. Cada vizinho bisbilhotava seu vizinho, cada indivíduo era suspeito e o Partido-Estado, junto com sua polícia política, a NKVD, espionava a tudo e a todos. O “coletivo”, a “vontade geral”, “indestrutível” nas palavras de Rousseau, tornou-se um monstro capaz de consumir e aniquilar os próprios indivíduos. Os nazistas e os comunistas têm sólido débito com Rousseau. A ditadura de partido único, com suas organizações de massa, foi a idealização concreta da “vontade geral”, dentro de um sistema de uniformidade política. E a sua religião civil estatal virou o culto da nação, da raça ou da classe eleita pela história. A diferença entre Rousseau e os totalitarismos, por assim dizer, é apenas questão de estrutura e institucionalidade. O partido único dá conta de ser a “vontade geral” de todo mundo. Gerar forçosamente um consenso foi a coisa mais simples. E ainda há gente que acha que o elemento essencial da democracia é a vontade da maioria!

Porém, essa cantilena da voz do povo parece dominar o espírito do Ministro, já que as suas razões não estão nas leis, mas nas manifestações da chamada “opinião pública”. Como se sabe, “opinião pública”, tal como “vontade geral”, é o conceito amplo, que pode ser perfeitamente distorcido. A pergunta que surge é: quem fala em nome da opinião pública? Quem fala em nome das ruas? Se for analisada a chamada “sociedade civil” com suas ONGs, “movimentos sociais”, escolas e universidades, além da imprensa, a hegemonia da esquerda é quase absoluta. Só que esta é tão somente uma minoria bem organizada e, provavelmente, não representa o grosso do que pensam a maioria dos brasileiros. Será que a justiça ignorará suas leis e suas regras formais, dentro de um Estado de Direito, para fazer valer a opinião de um grupo minoritário, só porque ele se autonomeia porta-voz de uma maioria silenciosa? A experiência histórica não engana: esses porta-vozes da “vontade do povo” não representam nada do povo. Representam a apenas a sua vontade política em causa própria.

Não será o mesmo dilema para o Ministro Joaquim Barbosa, quando ele apela à “voz da rua”, como se os juízos vulgares da massa pudessem superar o bom senso e a imparcialidade dos juízes? Qualquer pessoa de bom senso sabe que as opiniões comuns do povo são as mais toscas, as mais superficiais, produtos, muitas vezes, de lugares-comuns produzidos pela imprensa e por facções políticas poderosas. É lamentável que alguém, supostamente preparado para a salvaguarda das leis, faça dos palpites rasteiros da massa um pretexto para a legitimidade de suas idéias ou pendengas com outros ministros. Se tais idiossincrasias demagógicas germinam na cabeça de um juiz do Supremo, que dirá então se o rebanho começar a ditar regras, ao arrepio das leis instituídas, e os magistrados acatarem-nas? Todos os mais aberrantes totalitarismos nascem de uma fictícia “vontade popular” compacta, elevada na sacralização do poder estatal que diz emaná-la. Entretanto, o Sr. Ministro não está sozinho na premissa arbitrária que expôs para sua defesa. A própria democracia se permite a isso. A política moderna diviniza a vontade popular. Tais as origens intelectuais das aberrações professadas publicamente pelo ministro. . .

terça-feira, julho 14, 2009

Espetáculo da decadência.


Quando soube da notícia da morte do cantor Michael Jackson, confesso que tive uma surpresa. Não que eu morresse de amores pela suas músicas. No geral, sua carreira me foi indiferente. Alguma exceção que apreciei foi na época do “Jackson Five” e alguns sucessos isolados, quando o artista ainda era um jovem negro, isso, quando eu era também uma criança, lá pelos anos 80. A precocidade de seu falecimento causou certo impacto, embora o sujeito tivesse um comportamento visivelmente niilista, destrutivo. Curioso foi o circo de sensacionalismo e vulgaridade que a mídia nos brindou, a respeito de seu velório. Durante uma semana, o noticiário estava tão impregnado de Michael Jackson que pensei seriamente que deviam enterrá-lo o mais rápido possível, de preferência, jogando toneladas de concreto, para que o cadáver não saísse nunca mais do túmulo. Assim, seriamos poupados dos zumbis do Thriller e deixaríamos o homem descansar em paz. Ao menos, ele teria uma morte digna!

Foi um caso estranho de intoxicação jornalística, de repetição frenética de propaganda, quase que como uma lavagem cerebral digna das ditaduras totalitárias. Quase tudo era divulgado e provavelmente saberíamos de tudo sobre ele: seus caprichos, seus problemas familiares, suas supostas namoradas, seus escândalos sexuais pedófilos e, quem sabe, até a cor de sua cueca. E mais fofocas corriam soltas sobre sua herança e seus milhões de dólares gastos em futilidades e plásticas monstruosas no nariz e em todo o rosto. Apesar de tudo, esse detalhe não foi tão surpreendente. Assustador mesmo foi o vendaval da idolatria pelo cantor, algo chegando às raias do patético. Fãs que choravam copiosamente, fãs que seguravam os retratos do ídolo, fãs que peregrinavam sobre a propriedade do cantor na “Terra do Nunca”, idealizando-o, imputando-o virtudes inexistentes, como se fosse uma espécie moderna de santo medieval. Até a morte se tornou uma espécie de espetáculo! É curioso que nesta dramatização de choros, ranger de dentes e desesperos, há um retrato de profundo vazio espiritual em nossa sociedade. O apego cego a Michael Jackson e o fanatismo disseminado pela imprensa é um sintoma completo disso.

Este fato me causou profunda impressão. Se atentarmos às peregrinações, manifestações deploráveis de culto à personalidade e idealizações rasteiras do ídolo pop, elas representam um sintoma de religiosidade, ainda que distorcida e caricatural. Isso leva a crer que, a despeito do bombardeio sistemático contra a religião, alimentado pela imprensa e setores culturais, o laicismo e o materialismo não conseguem abolir o sentimento religioso. No máximo, conseguem corrompê-lo, na reverência a coisas transitórias. A histeria em torno de Michael Jackson é a devoção popular do supérfluo, do efêmero, cujo objeto de consumo será esquecido na próxima estação. E será substituído por outra figura bizarra e estranha, tão deformada quanto o ídolo anterior. Se não bastasse este mero detalhe, a imprensa desenterrou outras figuras lendárias do mundo pop: desde Elvis Presley até Janis Joplin, a hagiografia dos artistas foi quase completa. E, ainda, sem se esquecer de John Lennon, com suas músicas enfadonhas e seus sonhos idiotas de “imagine”. . .

A nossa sociedade capitalista, decerto, proporciona muitos confortos materiais. Inclusive, aumentou o padrão de vida das populações. Contudo, já dizia o epíteto bíblico de que não só do pão viverá o homem. E neste aspecto, o homem médio da atualidade parece viver numa fome espiritual profunda e come farelos. Os confortos materiais da sociedade criam uma ilusão de que o universo imanente é a única coisa que existe e pode nos realizar. É sintomático que nossa sociedade seja tão rica materialmente e tão pobre espiritualmente. A falta da crença em algo transcendente e absoluto leva a atual sociedade a adorar deuses de barro. Houve gente que dizia que Deus estava morto. Na verdade, quem morreu espiritualmente foi o homem. . .Chesterton afirmava que quando as pessoas deixam de crer na religião cristã, elas podem crer em qualquer besteira! Nada mais correto! O fenômeno Michael Jackson é a representação mais perfeita deste show de decadência!

quinta-feira, julho 09, 2009

Caríssimos amigos.

Eu estava ausente por uns tempos, por conta de alguns problemas particulares. A partir da próxima semana, estarei voltando com mais novidades. Abraços!