domingo, setembro 27, 2009

Totalitarismos mortos e vivos: o que a Veja não disse. . .

Quando um grupo de delinqüentes skinheads é preso por apregoar idéias nazistas ou espancar gays nas ruas, alguns setores da imprensa dão uma intensa cobertura sobre o assunto e fazem alarde histérico sobre o suposto crescimento do nazismo. A coisa se torna até caricatural: alguns programas de TV convidam membros da comunidade judaica a falarem das experiências dos campos de concentração na Europa, como se a ameaça nazista fosse onipresente, como se o espantalho de Hitler ressurgisse das cinzas do bunker de Berlim, para restaurar o poder, na figura de alguns marginais da baixada. Na cabeça dessas criaturas midiáticas mentecaptas, o espectro do nazifascismo ameaça assolar o mundo!

Entretanto, o mesmo tratamento não é dado ao comunismo. Se não bastasse a atenção desproporcional a um totalitarismo morto e enterrado há pelo menos quase 70 anos, os mesmos comentaristas e formadores de opinião ridicularizam àqueles que afirmam sobre a força que os movimentos revolucionários comunistas possuem em nossas democracias. Esses jornalistas dizem que o “socialismo morreu”, que o alerta anticomunista é “coisa da guerra fria”, que não existe nenhuma ameaça da volta de um regime totalitário similar ao que ocorreu na União Soviética e que ainda vigora na China e na Coréia do Norte. O comunismo mata até hoje. Mas ninguém liga. É um caso estranho de histeria rasteira com amnésia retardada!

Há de se conjecturar: a histeria antinazista foi de grande valia para o movimento comunista. Ela colaborou para transformar os inimigos do comunismo como meros reflexos do cadáver fascista, quando na verdade serviu de ocultações de crimes e genocídios muito mais assombrosos das ditaduras marxistas. Isso acobertou, inclusive, o envolvimento do Estado nazista com a União Soviética, em particular, o rearmamento da Alemanha pelo exército vermelho e a criação dos campos de extermínio alemães, estruturada com sólida logística da NKVD, a polícia política soviética. Essa desproporção doentia teve sólido apoio dos intelectuais de esquerda ocidentais, que inventaram o mito do ressurgimento nazista e ocultavam a ameaça real dos comunistas. Foram as idiossincrasias da tal “esquerda moderada” que tantos conclamam como “democrática”. Daí a patetice ridícula de censurar suásticas e prender meia dúzia marginais nazistas sem expressividade alguma, quando o Partido Comunista e seus sequazes similares da esquerda disputam democraticamente o poder, no intento de implantar seu sistema de opressão. E até hoje eles têm sólido apoio de uma intelectualidade universitária poderosa, dominadora, apta a disseminar "ativistas sociais" inúteis propagando as maravilhas da burocracia estatal voluntariosa, do Arquipélago Gulag e do milagre do Estado onipotente.

Essa esquizofrenia mental se torna mais visível quando a imprensa nacional registra os acontecimentos na América Latina e no mundo como se fossem expedientes acidentais, ocasionais, sem relações com um projeto de poder de um grupo. Pode-se incluir, como um exemplo clássico disso, a crença, disseminada até por liberais estúpidos, da famigerada morte do socialismo. Inclusive, algumas revistas falam da chamada “esquerda responsável”, que acolhe o livre mercado e abandona a concepção totalitária na economia e na sociedade civil. A burrice do liberal médio é achar que a liberdade se resume à sua visão economicista de livre mercado, ainda que a esquerda controle de forma totalitária todo o resto. Os liberais não estão empolgadinhos com os progressos do livre mercado na China comunista? Se a nossa realidade chegou ao estado de coisas alienantes dos dias de hoje, os liberais e paladinos do livre mercado têm grande cumplicidade com o crime. Acovardados, pusilânimes, complacentes, aceitaram perfeitamente o domínio das esquerdas em troca de migalhas. E foram eles que alimentaram a farsa da falsa defunta comunista.

A cobertura dada pela Revista Veja a respeito da crise em Honduras, causada por obséquio do ditador Hugo Chavez e do Presidente Lula, retrata essa cegueira sobre a “morte do socialismo”. A América Latina inteira caminha para o modelo socialista. E, mesmo assim, os idiotas ainda acreditam que o socialismo morreu. Morreu onde? Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia, Paraguai, Argentina, El Salvador e agora Honduras, sofrem com o bolivarianismo, com o “socialismo do século XXI”. E o Brasil é o elemento estratégico de promoção de ditaduras esquerdistas na América Latina, com a ajuda do “moderado” governo Lula.

Os jornalistas de Veja e os liberais podem afirmar à vontade que o socialismo morreu, ainda que nossas escolas preguem literatura marxista a granel, ainda que nossas universidades sejam dominadas pelas esquerdas revolucionárias, ainda que a revolução russa e as ditaduras comunistas sejam glamourizadas como uma contrapartida viável ao capitalismo. Ademais, na mesma edição da revista há uma matéria a respeito dos partidos radicais de esquerda, nanicos, supostamente sem expressividade política nos pleitos eleitorais. Todavia, não é estranho que esses grupelhos tenham um controle desproporcional sobre os meios culturais de nosso país? Não é assustador que eles formem quadros justamente em universidades e escolas? Que mesmo o governo federal libere dinheiro público para organizações estudantis comunistas como a UNE? Ou que a indústria de invasão de terras praticada pelos radicais maoístas fanáticos MST tenha um aval milionário do governo petista?

Mas a Revista Veja dá ao leitor a idéia falsa de que o PT é diferente dos partidos radicais de esquerda que ela tanto deprecia. Os jornalistas ainda chegam a presumir que a ligação do movimento revolucionário com o narcotráfico na América Latina seria uma espécie de aberração, não uma parte essencialmente criminosa da militância comunista. Ou seja, os jornalistas santificam a esquerda e dão o aval de afirmar, categoricamente, que ela é partidária da democracia. Será que os jornalistas crêem que gente como Lênin ou Stálin eram figuras angelicais? Que o Partido Bolchevique se sustentava através de ofertas e dízimos? Qualquer pessoa minimamente informada saberia responder essa pergunta: os movimentos de esquerda guardam através de si um histórico tradicional de banditismo e criminalidade. O que ocorre na América Latina não é diferente do que Lênin fazia quando mandava Stálin assaltar um banco ou extorquir gente rica. A aliança de Lula, Chavez, Zelaya, com o narcotráfico das Farc não é mera coincidência. E o que é a criminalidade do Estado comunista senão o banditismo, o terrorismo e o genocídio transformados em lei? Ah sim, Veja nunca se refere ao socialismo “bolivariano”. No linguajar da revista, Chavez e Zelaya são apenas “populistas”!

O jornalismo da Revista Veja ainda colabora para outro rol de falácias. Fala do “golpe de Estado“ inexistente em Honduras, quando na verdade, essa idéia mitológica é criação fictícia das próprias esquerdas que querem destruir a democracia naquele país. O Congresso Nacional, o Judiciário, o Ministério Público e o exército tiveram plena legitimidade para derrubar o governo Zelaya, que violou a Constituição hondurenha. Por que um periódico, que supostamente tem fama de ser anti-petista, alimenta as mesmas mentiras do inimigo? O mais grave, contudo, é a omissão da reportagem a respeito da entidade mais influente da América Latina, o Foro de São Paulo, presidido, nada mais, nada menos do que pelo próprio Presidente do Brasil, Luis Ignácio Lula da Silva. Na Declaração Final do XV Encontro do Foro de São Paulo, ocorrido no México, entre os dias 20 e 23 de agosto de 2009, foi redigida uma declaração final nos seguintes dizeres:

"Décimo quinto. O XV Encontro do Foro de São Paulo aprovou mn plano de trabalhoo para o próximo ano que se propõe:
1. Acompanhar os governos progressistas e de esquerda, organizando um debate e intercâmbio permanente de informação entre os dirigentes dos partidos do FSP sobre a evolução da situação em América Latina e dos governos da região criando para eles um Observatório de Governos de esquerda e Progressistas.
2. 2. Apoiar decididamente a esquerda hondurenha nos términos de resolução particular aprovada por este XV Encontro”.

Em outras palavras, o movimento comunista está organizado em escala continental, impondo diretrizes a quase todos os governos do continente e decidindo, à revelia do povo de Honduras e demais outros países, pela destruição de seus sistemas democráticos. O Foro de SP pode rasgar a Constituição de Honduras e destruir a democracia e a soberania daquele país, tudo em nome da democracia!

Basta analisar a política petista em todos os seus ângulos para perceber que o governo Lula não é nada diferente de um partido revolucionário. O PT segue todos os passos da esquerda mundial, quando usa uma dupla face no sistema democrático. Por um lado, finge aceitar as regras do Estado de Direito; por outro lado, alimenta a sanha da revolta revolucionária. O PT é o partido que aceita o livre mercado, ao mesmo tempo em que expande uma gigantesca burocracia estatal e aparelha o Estado e a sociedade civil; é o partido que diz defender a democracia, da mesma forma que aprova as brutais tiranias islâmicas, reconhece a legitimidade da China comunista como economia de mercado e, ainda, dá franco apoio à ditadura da Coréia do Norte, no sentido de hostilizar o Japão e subjugar a democrática Coréia do Sul.

A política do PT, de fazer da embaixada do Brasil em Honduras um palanque do capataz de Hugo Chavez, o ex-presidente Zelaya, faz parte do mesmo processo revolucionário que contamina a América Latina. É o reflexo mesmo da futura ditadura do partido-Estado. O Ministro das Relações Exteriores, o mentiroso farsante Celso Amorim, e seu comparsa, o lunático Marco Aurélio Garcia, usam a diplomacia brasileira para atender aos interesses ideológicos do Partido e das esquerdas latino-americanas. Todos eles querem arruinar a democracia em Honduras; querem expandir a influência da Venezuela no país, implantando uma nova ditadura socialista. Ou pior, querem expandir o domínio do Foro de São Paulo, o braço armado do comunismo latino-americano, tal como em outras épocas fora o Comintern, sobre os países democráticos que ainda resistem no continente. O PT, ao estreitar laços com os regimes totalitários ou mesmo expandi-los, quer isolar o Brasil das relações com as nações democráticas e criar um aparato de poder ditatorial dentro do país. A questão é mais que óbvia. O mal mesmo é a desinformação.

No Brasil atual, a mídia pode fazer alardes tenebrosos sobre o crescimento inexistente do nazismo ou de qualquer outra aberração fascista. A comunidade judaica pode ser até convidada a participar da farsa, ignorando que os anti-semitas atuais não são nazistas, mas comunistas, aliados do Irã e do islamismo terrorista. Contudo, a despeito de todas as evidências notórias da expansão comunista na América Latina, o grosso da imprensa se aliena, fecha os olhos, dissemina que tudo é teoria da conspiração. Ou na pior das hipóteses mente ao público. A Veja participa desse tipo de mistificação, negando os fatos. O totalitarismo morto assusta mais do que o totalitarismo vivo. O cadáver do nazifascismo oculta o ogro filantrópico comunista, vivíssimo no mundo! A desproporção entre fantasia e realidade mostra a esquizofrenia sintomática das mentalidades atuais.

Uma república da farsa.

Acompanhei com certo ceticismo as manifestações que pediam a renúncia do senador José Sarney ao cargo de Presidente do Senado. Na verdade, essas manifestações são um sinais claros de uma perversão moral completa de nossos tempos. Alguém achará aqui que defendo Sarney? Nada disso. Pelo contrário, por que será que um grupo de pessoas faz histeria nos gritos de “fora Sarney”, quando na verdade, não move uma palha ao governo que o sancionou e o apoiou, ou seja, o governo Lula? É estranho que façam campanhas pela moralidade, quando na verdade o presidente Lula, depois do completo envolvimento com o senador, torna-se figura intocável, acima do bem e do mal, a despeito de seus delitos bem piores. A culpa pela desmoralização do senado não é de José Sarney: é do governo Lula. E onde estão os protestos de “Fora Lula”?

Se há algo que retrata muito bem nessas campanhas de ética na política é a farsa moral em vista de uma indignação fingida. Não duvido muito que os idealizadores da campanha contra Sarney sejam todos quase petistas. Ou, no mínimo, uma minoria petista deu a idéia para que a massa tola seguisse os caminhos da moralidade fajuta. “Ética”, por, assim dizer, virou apenas jogo retórico para ganhar votos, manipular idiotas úteis ou atacar os inimigos. Há tal distorção do sentido da realidade, que as manifestações parecem esquizofrênicas, fora de contexto. Por que a opinião pública lava as mãos pelo presidente Lula? O viés ideológico e a cumplicidade com o crime são elementos óbvios demais para perceber o que está por trás da destruição do senador José Sarney. É assustadora a vesguice intelectual das classes políticas e das elites, no que diz respeito a uma campanha de desmoralização do Congresso Nacional. Sarney serve para virar espantalho da Casa Legislativa, no sentido de desmoralizá-la. O pior de tudo é que o senador, raposa da nossa república, ainda alimente este jogo, confundindo sua vida abjeta de corrupção e falcatruas com a impessoalidade do Senado.

De fato, o fenômeno revela algo bem pior: uma classe de pessoas neste país tem o monopólio de ditar o que é moralidade política para os outros, ainda que não se sujeite a esta. Desde a época de Fernando Collor, passando pelo governo FHC, as esquerdas revolucionárias, lenta e gradualmente, ocuparam espaços na sociedade civil, explorando o vácuo da opinião pública e tornando-se voz dominante por intermédio dos meios culturais e políticos, através dos chamados “movimentos sociais”. De fato, há um alijamento completo da sociedade civil com as entidades que dizem representá-la. Por um lado, pequenos grupos rigidamente organizados, que dominam os espaços culturais e midiáticos, suprimindo dissidências internas e implantado uma verdadeira ditadura cultural de opiniões; e por outro, uma massa amorfa de pessoas, sem representatividade, obrigada a votar em projetos que não acredita ou simplesmente ignora. O grosso desses indivíduos é conservador e anti-totalitário, mas não tem voz e não se mobiliza; uma parte importante da elite política e cultural é largamente revolucionária e totalitária e quer impor goela adentro seus projetos de engenharia social sobre toda a sociedade. Tal é o sentido da gravidade por que passa nossa democracia.

O presidente Lula, no limiar do mais completo cinismo, afirmou que as próximas eleições presidenciais serão uma disputa entre esquerdas. Ele sabe o que diz. A oposição há muito deixou de atuar no país. É pior, a oposição é também de esquerda. O presidente revela seu conceito particular de “democracia”. Na prática, a pleito eleitoral não passará de um revezamento entre facções de esquerda, uma versão disfarçada do “centralismo democrático” leninista. Só que o partido não uma entidade política ou institucional apenas: é a própria cultura, através do imaginário esquerdista disseminado sobre toda a sociedade. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, reproduzindo Antonio Gramsci, já falou claramente que o Brasil já alcançou a “hegemonia” da esquerda. Não é por acaso: há gente que acredita que o PSDB seja de direita! Sim, os tucanos são a direita sim, mas da esquerda!

A absolvição de Sarney era mais que esperada. Com o apoio de dos ratos de porão da Casa Legislativa Renan Calheiros, Collor (outrora inimigo de Lula), a trupe petista e outros demais bandidos da república, a impunidade se tornou regra, a ilegalidade se tornou lei. No entanto, esses mesmos aliados do petismo estão afundando, lenta e gradualmente. E quanto mais as velhas oligarquias cavam sua sepultura, um novo poder oligárquico, poderoso, impassível, inescrupuloso e acima de qualquer princípio de moralidade perverte e contamina todas as instituições da república. É a farsa de nossa democracia!

sábado, setembro 26, 2009

David contra Golias: aqui somos todos hondurenhos!

Depois das pressões de bandidos delinqüentes como Zelaya, Hugo Chavez, Lula, Obama e a camarilha comunista da ONU contra a democracia hondurenha, aquele pequeno povo da América Central mostra coragem e patriotismo para enfrentar o totalitarismo esquerdista bolivariano. Força, povo de Honduras, que David vencerá Golias!

segunda-feira, setembro 21, 2009

Quando o Estado é um castrador. . .

Quando eu leio sobre a Europa medieval, percebo que há um elemento peculiar ao homem europeu daqueles tempos: o senso de comunidade, de solidariedade familiar, de alegria, de amor, de afetividade explícita, além de uma profunda religiosidade. Numa época de guerra, de fome, de peste, enfim, de desgraças monstruosas, os europeus tinham uma profunda fé em Deus e um espantoso vigor intelectual, moral e espiritual. O homem europeu médio era hospitaleiro: em nome de Cristo, ele criava hospitais e doava esmolas aos pobres; construía Igrejas majestosas e mosteiros, simbolizando seu profundo amor pela eternidade. Da nobreza ao campesinato, passando pelo clero, essa ética de piedade, compaixão e hospitalidade permeava a solidariedade medieval. A cavalaria criou as regras da etiqueta amorosa e da cortesia à mulher. Em poesias e cartas, os sentimentos eram declarados: o homem retratava seu amor pela mulher inatingível; o amigo assumia pactos, acordos e sentimentos de dever para com seu concidadão. As irmandades eram questões de honra e sobrevivência.

E não falemos de gente melindrada. O homem medieval era uma criatura rude, muitas vezes de temperamento violento e explosivo. E as regras sociais eram bastante severas. A religião cristã e a Igreja Católica educaram esse espírito barbarizado para a ascensão de verdadeiras instituições, verdadeiros laços comunitário, verdadeira ordem e hierarquia de valores genuínos na civilização européia. Dentro das inúmeras divisões do Velho Continente, da Inglaterra a Portugal, da Espanha ao Leste Europeu, com suas variadas línguas, dialetos, havia um elemento que o unia, chamado Cristandade. A nação, por assim dizer, não era o feudo, não era o reino, não era a vila: era a fé!

O que motivava um cavaleiro medieval a criar hospitais em Jerusalém para peregrinos cristãos de todas as partes do mundo, e mesmo para não-cristãos, pagando penitências pelos seus pecados? O que motivava um monge a largar a sua casta rica e se dedicar aos pobres como mendigo? O que motivava um sábio bispo a cuidar do seu rebanho, dedicando-se às coisas do espírito e da filosofia? Era a fé vivificadora que dominava o espírito daqueles homens, a ponto de enfrentarem as piores adversidades.

Por que escrevo isso acima? A Europa com que me identifico, com que me vejo no espelho, ao qual me lembra, e muito, a realidade brasileira, é essa época medieval hospitaleira, emotiva, cristã, católica. Às vezes penso que muito da nossa afetividade e hospitalidade provém desse universo ibérico intocável pela modernidade, esse universo de relações familiares, muito mais fortes do que as relações com o Estado. É como se a Idade Média, exilada, viesse ao Brasil em pleno século XVI, através de naus e caravelas, e o Atlântico a isolasse da lenta e gradual decadência espiritual da Europa. Não é por acaso que muitos europeus identificam o povo brasileiro com o italiano. Algumas regiões da Itália ainda preservam aquela mentalidade comunitária medieval em que as famílias se mesclam com o povoado, como se todo mundo fosse conhecido, como se todos tivessem laços de parentesco.


Como descobri isso? Um aspecto interessante é quando os brasileiros contatam com os europeus da atualidade. A impressão que fica é a de que os europeus são “frios”, “distantes”, sem empatia (e quando são germânicos, a situação fica pior ainda). Já os brasileiros falam freneticamente, gesticulam, mostram suas afeições naturais e não temem demonstrar sentimentos, além de serem bastante hospitaleiros. É como se para muitos brasileiros não existisse a pessoa estranha. Todos se cumprimentam diariamente, mesmo que ninguém se conheça. Os europeus, medrosos, ficam assustados com isso; estranham muito mais ainda esse ambiente de intimidades, falatório exagerado, afetividades demasiado explícitas.

Mas será que a “frieza” européia, esse distanciamento do calor humano, é um fenômeno permanente do temperamento daquele povo? Quando eu leio as descrições dos homens medievais gesticulando, falando muito ou mesmo brigando entre si, há um retrato de uma espontaneidade inexistente no europeu atual. Parece que o conjunto de regras atuais da sociedade européia, seja nos costumes, leis e estruturas políticas, atomiza o individuo, anula-o, esmaga-o. Daí a entender porque cada um cuida de si e ninguém olha para seu vizinho. Dispersos, sem origens, sem laços comunitários fortes, os europeus parecem se trancar em suas respectivas casas, esperando a hora da morte ou abreviando sua vida pelo suicídio. O paraíso do “bem-estar social” governamental se conflita com o mal estar coletivo de uma sociedade que perdeu suas próprias referências éticas, morais, espirituais e civilizacionais. O apego mesquinho e materialista generalizado ao bem estar econômico e a completa omissão nos laços afetivos e espirituais, seja na vida privada, como na vida comunitária, são sinais de claros de decadência.

Minha opinião pode ser exagerada, pessimista? Talvez. Entretanto, os relatos que ouço dos meus amigos que viveram na Europa parecem retratar uma patologia social: a indiferença existencial com o próximo e consigo mesmo, a falta de perspectivas futuras, o hedonismo, o niilismo, o ateísmo, são retratos de uma espiritualidade enferma. Isso é o que parece ser a Europa laica, a Europa que renega suas raízes cristãs, a velha Europa que trata sua cultura, seus palácios e suas catedrais como uma peça de museu. A civilização européia atual é uma espécie de morta-viva, cujo vigor se esgotou. Renega seu passado e não consegue presenciar um futuro certo. Numa demonstração cabal de prostração completa, a União Européia simplesmente se recusou a reconhecer no Cristianismo a base de sua civilização. Enquanto isso, os governos europeus se acovardam com relação à expansão do Islã.

Falei de modelos políticos. Se há algo que o Estado europeu conseguiu fazer foi castrar sua civilização em todos os sentidos. O “cidadão europeu” é uma figura impessoal, assexuada, uma mera engrenagem desse Estado, desse elemento político abstrato. É paradoxal que o modelo político democrático, prometendo respeitar a esfera privada das relações civis, acabasse por expandir a burocracia e aniquilar os indivíduos. Na verdade, a democracia não é garantia absoluta na defesa das liberdades. Em nome da privacidade, da delimitação e proteção de direitos, o Estado cria leis e regras isolando as pessoas do convívio social. Essa legião de cidadãos solitários, amorfos, acaba se tornando massas, sem identidade própria, sem individualidade. A solidão nauseante do indivíduo dentro das multidões é o paradoxo de nossa realidade atual. No vazio comunitário dessa esfera privada, no viés da sociedade atomizada, o Estado alarga seu braço, ocupando atividades antes voluntárias, para torná-las coercitivas, compulsórias e quase sempre opressivas. O Estado “oferece” educação, mas tira as escolhas das famílias para educar seus filhos; o Estado "oferece" assistência médica e usurpa o direito de escolher o tipo de tratamento; o Estado "oferece" o bem estar, ditando como, quando e o que devemos trabalhar ou comer. O Estado é laico e criminaliza a fé religiosa; enquanto isso, ele mesmo se eleva como o deus, como se fosse a própria encarnação da religião civil. E o objeto de fé comum do sistema democrático moderno é o coletivo, é a massa, é a maioria tirânica, que legitima o despotismo governamental para ser tiranizada pelo Estado.

Não nego que haja traços psicológicos particulares que façam os europeus serem mais distantes do que os brasileiros em geral (se bem que os latinos também sejam europeus e não são necessariamente distantes). Entretanto, numa sociedade que se tornou cínica, moralmente duvidosa e potencialmente suicida, é necessário questionar seus sintomas. A expansão da burocracia estatal na Europa, coligada com o rebaixamento moral de sua sociedade, é um deles. Outro, claro, é o relativismo moral, que dessacralizou a religião, os valores cristãos, a família, rejeitou o amor à Deus e mesmo relativizou o direito à vida. Houve uma Europa que criava hospitais para doentes e velhos; hoje, a nova Europa quer exterminá-los, vide as propostas da eutanásia. Havia uma Europa que gerava famílias cristãs leais, numerosas e acolhedoras. Hoje é uma Europa estéril, que não gera filhos. Ou pior, que aborta seus filhos.

A Europa foi a precursora do espírito de iniciativa do capitalismo, da liberdade econômica e da geração da riqueza, com seus aventureiros, comerciantes, navegantes e homens de coragem, que singraram os mares do mundo; hoje é uma sociedade apática, sem iniciativa, incapaz de gerir-se por conta própria, já que os cidadãos, cada vez mais, são dependentes do Estado paternalista e opressor. Dependência que ameaça até o cerne das liberdades democráticas do mundo europeu.

Houve uma Europa que criou verdadeiros baluartes do conhecimento humano nas universidades. A universidade européia atual, no ramo de humanidades, com suas ideologias espúrias, é uma sombra obscura daquilo que foi uma das maiores invenções do mundo medieval. O Velho Continente foi o experimento grandioso de uma gloriosa civilização cristianizada, berço fiel da Igreja; e atualmente é uma sociedade sem perspectiva futura, depressiva, imediatista, potencialmente suicida, porque abandonou os valores absolutos e a fé na transcendência divina. No vácuo espiritual, a Europa é ameaçada, inclusive, de ser subjugada pelo islã. O que o islamismo não conquistou o continente europeu pela guerra, conquistará pela pusilanimidade.


Há muitos brasileiros que sonham com o modelo europeu de mal estar social. Enganada por uma propaganda falaciosa das esquerdas estatólatras, essa gente acredita que o Estado faz milagres na vida social, é autoridade moral superior para resolver seus próprios problemas e responsabilidades e isentá-la dessas questões. No entanto, ainda se pode agradecer aos céus que os brasileiros sejam apegados à família ou à religião católica; que sejam solidários no seu cotidiano e calorosos com os outros. O brasileiro médio ainda tem empatia, sentimentos, é ainda uma pessoa. O Estado brasileiro, acatando as cartilhas politicamente corretas da esquerda norte-americana, da Europa e da ONU, quer destruir esse caráter espontâneo que existe em cada um de nós. Quer nos fragmentar socialmente, racialmente, estimular ódios e divisões internas artificiais no país. E em nome disso, deseja expandir cada vez mais o governo sobre nossas vidas, bestializando as nossas cabeças e rebaixando nossas existências. A Europa atual é o exemplo daquilo que não devemos ser. O europeu médio é um ser martirizado pelo próprio sistema que criou. É vítima da “terceira via”, do “comunismo chique” que é a social-democracia, assustadoramente influente nas democracias liberais. Enfim, é um homem castrado pelo Estado.